A recente flexibilização promovida pelo governo André Vechi nas regras do Programa Arthur Schlösser de Incentivo ao Esporte (Bolsa-Atleta e Bolsa-Técnico) vai muito além de uma simples “modernização administrativa” ou “ampliação de oportunidades”, como tenta sustentar o discurso oficial.
Embora a Prefeitura de Brusque não se manifeste oficialmente sobre o tema e sequer tenha respondido de forma objetiva aos questionamentos relacionados à inclusão do item 3.1, inciso VII do edital — que permite a contratação de entidades esportivas de fora do município para representar Brusque em competições oficiais —, fontes ligadas diretamente ao governo confirmam que a estratégia por trás da mudança é clara e tem endereço político bem definido.
O objetivo central seria preparar Brusque para sediar os Jogos Abertos de Santa Catarina (JASC) em 2027, utilizando a brecha legal para montar, artificialmente, delegações competitivas em modalidades nas quais o município não possui base, formação ou tradição esportiva.
Na prática, a flexibilização abre caminho para que o município importe dezenas de entidades e centenas de atletas, permitindo que equipes de fora passem a competir oficialmente como “Brusque”, inflando resultados e pontuações gerais em um período estrategicamente sensível: o ano pré-eleitoral de 2028.
“Maquiagem esportiva” como estratégia política
A lógica é simples: como Brusque não tem estrutura de base consolidada na maioria das modalidades olímpicas e coletivas, o governo passa a investir não no desenvolvimento local, mas na compra de performance pronta.
Um exemplo emblemático é a ginástica artística. A modalidade, que não possui base estruturada no município, foi contratada para representar Brusque nos Jasc e acabou sendo campeã geral, elevando significativamente a pontuação da cidade no quadro de resultados estaduais. O título, embora computado oficialmente como conquista brusquense, não reflete a realidade esportiva local.
Neste ano, a mesma equipe deverá receber cerca de R$ 20 mil mensais dos cofres públicos para seguir representando o município — mesmo sem formação de atletas locais, sem escolinhas consolidadas e sem legado esportivo real para a cidade. Ou seja, Brusque ganha medalhas, mas não ganha atletas.
Importação também nas modalidades coletivas
Além da contratação de entidades inteiras de fora, o regulamento também flexibiliza o limite de atletas não residentes em Brusque nas modalidades coletivas, permitindo que até 30% do elenco seja formado por atletas de fora. Na prática, isso autoriza que equipes importem peças-chave para elevar o nível competitivo, independentemente do trabalho de base local.
O resultado é um modelo que maquia completamente a realidade do esporte brusquense, transformando o Bolsa-Atleta em uma ferramenta de marketing político e não mais em uma política pública de formação esportiva.
Resultado bom no papel, vazio na prática
O discurso institucional fala em “investimento histórico” e “fortalecimento do esporte”, mas o que se desenha nos bastidores é um projeto de resultado imediato, voltado para fotos, rankings e cerimônias de premiação — não para o desenvolvimento estrutural do esporte.
Em vez de investir em escolinhas, formação de professores, infraestrutura de base e políticas de longo prazo, o município opta por comprar medalhas prontas, criando um cenário artificial de sucesso esportivo.
O risco é claro: quando cessarem os contratos e o interesse político, não ficará legado, não ficará base, não ficará atleta. Apenas estatísticas infladas e uma geração inteira de jovens brusquenses fora do processo.
No fim das contas, Brusque pode até aparecer no topo dos quadros de medalhas, mas seguirá longe de ser, de fato, uma cidade formadora de atletas. O desempenho melhora no papel — enquanto a realidade do esporte local permanece a mesma.
Ignorado do debate, Conselho Municipal do Esporte não se reúne para se inteirar do processo
Enquanto a Prefeitura de Brusque direciona recursos para a contratação de entidades e modalidades de fora do município, diversas equipes, atletas e representantes locais procuraram o EsporteSC relatando prejuízos diretos com o novo edital do Bolsa-Atleta. Entre as modalidades afetadas estão atletismo, judô, voleibol masculino, ciclismo, além de outras que tradicionalmente representam a cidade em competições estaduais e nacionais.
Diante das reclamações, o EsporteSC, por meio do jornalista e conselheiro Sidney Silva, representante da imprensa no Conselho Municipal de Esporte, solicitou oficialmente a convocação de uma reunião extraordinária em caráter de urgência ao presidente do Conselho, Delmar Tondolo. No entanto, mesmo diante da gravidade dos relatos, o pedido não foi acatado e o Conselho optou por não realizar a reunião, mantendo o novo edital sem debate público ou esclarecimentos formais às entidades afetadas.
Imagem capa: Ilustração/IA


