Além de R$ 300 mil com a ginástica, Bolsa-Atleta de Brusque vai pagar atletas de Concórdia, Joinville, São Paulo e Minas Gerais

Atletas de Brusque denunciaram ao EsporteSC casos de pagamento de outros atletas de fora em detrimento do investimento aos competidores locais

por Rafael Alves
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A divulgação da lista de candidatos pré-aprovados do Programa Arthur Schlösser de Incentivo ao Esporte, o Bolsa-Atleta e Bolsa-Técnico, segue gerando indignação entre atletas brusquenses. Competidores e representantes de modalidades denunciaram ao EsporteSC, que, além da Prefeitura contratar uma equipe inteira de ginástica artística de Florianópolis, com gasto de quase R$ 300 mil ano, atletas de Joinville, Concórdia e de clubes de São Paulo e até de Minas Gerais também receberão recursos do governo municipal, enquanto esportistas brusquenses, com histórico e resultados pela cidade, ficarão a ver navios.

Entre os nomes previamente beneficiados pelo novo edital do programa, estão atletas sem vínculo histórico com Brusque, oriundos de outras cidades e até de outros estados, contemplados com bolsas individuais que variam de R$ 1.500 a R$ 3.000 mensais.

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Atletas de fora contemplados

Um dos casos que mais chamou a atenção foi o de Rafael Casarotto, natural de Concórdia. O atleta integra a equipe de futsal de deficientes auditivos de Brusque e já participou dos Parajasc pela cidade. Contudo, esse ano, vai receber R$ 1.500 para representar o município também no atletismo, num acordo informal que sequer consta em edital. O valor foi retirado do montante total que seria destinado ao futsal para beneficiar exclusivamente o atleta.

Na reunião do Conselho Municipal de Esportes da última terça-feira (27), a chefe de rendimento da FME e integrante da comissão do Bolsa-Atleta, Taís Cristóvão da Silva, explicou que houve um remanejamento de recursos, em comum acordo com o técnico da modalidade. O ato, e sua validade, no entanto, não constam em edital.

Outro nome pré-selecionado é o da atleta Gabriela de Freitas Tardivo, natural de Curitiba e hoje vinculada ao Praia Clube, de Minas Gerais . Gabriela possui currículo expressivo no atletismo nacional, com títulos brasileiros sub-23 nos 3.000 metros com obstáculos e nos 5.000 metros, além de participação em provas de rua de alto nível, como a Maratona do Rio de Janeiro. Ela foi pré-aprovada para receber R$ 3.000 na modalidade individual.

Também na lista está Camilly Carolini dos Santos, de Joinville, atleta com trajetória consolidada no atletismo desde a infância. Camilly já foi campeã brasileira nas categorias sub-14 e sub-23, campeã dos Jogos Abertos de Santa Catarina (Jasc) e integrou a seleção brasileira no Sul-Americano Sub-23, na Colômbia. Assim como Gabriela, receberá R$ 3.000 pelo programa. Atualmente, Camilly compete vinculada a equipe Corville, de Joinville.

Outro nome que deverá receber o benefício é Vitor Hugo Silva Mourão dos Santos, de 29 anos, nascido e criado na Zona Oeste do Rio de Janeiro. O atleta tem passagem por Olimpíadas e Jogos Pan-Americanos, com medalhas e recordes em sua carreira. Ele foi 4º colocado nos 100 metros rasos defendendo Brusque nos Jasc 2025 e está pré-aprovado para receber R$ 2.500 na bolsa individual. Atualmente, está vinculado ao Esporte Clube Pinheiros.

Esses são os únicos representantes do atletismo pré-aprovados no Programa Arthur Schlösser de Incentivo ao Esporte. Clique aqui e confira a lista completa.

Consultado pela reportagem, o técnico de Atletismo de Brusque, Carlos Henrique Pratto, defendeu as contratações. “Todos os atletas que estão para ser contemplados vão representar a ABA (Associação Brusquense de Atletismo) durante todas as competições do ano. Apenas o Vitor Hugo é o único atleta que viria só para os Jogos Abertos. Isso foi uma negociação, ele já veio e representou a ABA ano passado nos Jogos Abertos e esse ano também. Os demais, estamos providenciando a transferência para que participem dos campeonatos nacionais e até internacionais. A Gabriela Tardivo já está quase com índice para o Pan-Americano e o Mundial Indoor”, finaliza. A Prefeitura de Brusque não tem se manifestado sobre nenhum caso envolvendo as críticas do edital e as reclamações sobre os possíveis desvios de finalidade do Bolsa-Atleta.


Flexibilização abre caminho para “importação” de atletas

As reclamações se intensificaram após a flexibilização promovida pela gestão do prefeito André Vechi nas regras do programa. O novo edital passou a permitir, por meio do item 3.1, inciso VII, a contratação de entidades esportivas e atletas de fora do município para representar Brusque em competições oficiais.

Embora a Prefeitura de Brusque não tenha se manifestado oficialmente sobre os questionamentos levantados pela reportagem, fontes ligadas ao governo confirmam que a estratégia tem como pano de fundo a preparação do município para sediar os Jogos Abertos de Santa Catarina (JASC) em 2027. A intenção seria montar delegações competitivas de forma artificial, utilizando atletas e equipes prontas, sem necessariamente investir na formação esportiva local.

“Maquiagem esportiva” e críticas ao modelo

Para atletas ouvidos pela reportagem, o modelo configura uma espécie de “maquiagem esportiva”. Um exemplo citado é o da ginástica artística, modalidade sem base estruturada em Brusque, mas que foi contratada de fora e acabou sendo campeã geral nos Jasc, inflando a pontuação do município. A equipe deverá receber cerca de R$ 300 mil de recursos públicos neste ano, sem deixar legado formativo à cidade.

Além disso, o edital também flexibiliza o limite de atletas não residentes nas modalidades coletivas, permitindo que até 30% do elenco seja formado por competidores de fora, o que, segundo críticos, esvazia ainda mais o propósito original do Bolsa-Atleta como política pública de incentivo ao esporte local.

Ciclismo também é alvo de críticas

Além do atletismo, o ciclismo também aparece como uma das modalidades mais impactadas pelo novo modelo do Bolsa-Atleta. Em reunião do Conselho Municipal de Esportes, Taís Cristóvão informou que o número de bolsas destinadas à modalidade foi reduzido de 13 para apenas três atletas em 2025. A justificativa apresentada foi o desempenho nos JASC do ano passado, quando Brusque conquistou apenas uma medalha.

A explicação, no entanto, foi duramente criticada por ciclistas da cidade. Atletas destacam que o ciclismo engloba diversas categorias – como estrada, mountain bike (XCO e XCM), BMX e downhill – e que avaliar a modalidade apenas pelo resultado final nos Jasc ignora a complexidade e a contribuição coletiva da equipe.

No Jasc de 2025, Brusque terminou o ciclismo na 5ª colocação geral, utilizando exclusivamente atletas locais, sem contratações externas. Segundo os ciclistas, vários competidores participaram de mais de uma prova, somando pontos importantes para o município. A redução drástica de bolsas, segundo eles, inviabiliza a formação de uma equipe competitiva e abre espaço para futuras contratações de atletas de fora apenas no período dos Jogos.

Comissão e próximos passos

A comissão responsável pelo Bolsa-Atleta é composta pelo superintendente da FME, Luiz Paulo de Souza, pela chefe de Projetos de Iniciação Esportiva, Taís Cristóvão da Silva, pelo diretor de Esportes de Alto Rendimento, José Carlos Costa, pelo diretor-geral de Gabinete, Victor Hugo Molina, e por Maicon Cesari, representante do Conselho Municipal de Esportes.

Segundo a Prefeitura, houve ausência de inscritos em algumas modalidades, o que motivou remanejamentos internos – inclusive no ciclismo, uma das modalidades mais afetadas, que perdeu cerca de 75% das vagas em relação ao ano anterior.

A lista final dos atletas contemplados pelo Programa Arthur Schlösser de Incentivo ao Esporte deverá ser divulgada no dia 2 de fevereiro, mas o debate sobre os rumos da política esportiva de Brusque segue aberto, com críticas cada vez mais contundentes da comunidade esportiva local.