Brusque e Carlos Renaux voltam a dividir o mesmo gramado neste domingo (11), às 19h30, no estádio Augusto Bauer, pela segunda rodada do Campeonato Catarinense 2026. Apesar de compartilharem a mesma cidade e uma longa história no futebol catarinense, este será apenas o terceiro confronto entre as equipes em nível profissional – o primeiro desde 2004.
Os dois únicos encontros aconteceram na Série B1 do Campeonato Catarinense daquele ano, equivalente à terceira divisão estadual à época. O Brusque venceu os dois jogos: 1 a 0, em 25 de abril, e 2 a 1, em 25 de julho.
O clássico que marcou o retorno do futebol profissional
O primeiro duelo entre Brusque e Carlos Renaux entrou para a história não apenas pelo caráter do clássico municipal, mas por simbolizar o retorno da cidade ao futebol profissional após um ano de inatividade. Em 2003, nenhum dos clubes do município disputou competições oficiais, em meio a disputas judiciais envolvendo a posse dos estádios Augusto Bauer e Cônsul Carlos Renaux.

Na estreia da Série B1 de 2004, cerca de três mil torcedores acompanharam o reencontro do futebol profissional com a cidade. O Carlos Renaux teve a chance de mudar o rumo da partida logo no início, quando o atacante Edgar Bertolini desperdiçou uma cobrança de pênalti. No segundo tempo, Léo marcou o gol da vitória quadricolor por 1 a 0.
“Parecia uma final de campeonato”
Centroavante do Carlos Renaux em 2004, Edgar Bertolini guarda lembranças marcantes daquele primeiro clássico profissional da cidade. Para ele, a real dimensão do confronto só ficou clara dentro de campo.
“Quando soube que teria o clássico, achei algo muito legal para a cidade. Dois times daqui se enfrentando. A gente sabia da importância, mas quando fomos aquecer e vimos o estádio cheio, parecia uma final de campeonato. Só ali, em campo, deu para ter a noção da rivalidade, das famílias e dos amigos todos no estádio”, relembra.
O pênalti desperdiçado por Edgar acabou ganhando espaço definitivo na memória do futebol brusquense. Artilheiro histórico do futebol amador da cidade, ele garante que a cobrança nunca foi um problema em sua carreira.
“Eu treinava pênalti direto. Cheguei a bater mais de 50 nos treinos sem errar. No jogo, poderia ter feito melhor, mas não mudaria nada: bateria no mesmo lugar”, afirma.

Edgar guarda profundo carinho pelo Carlos Renaux, clube que considera determinante em sua trajetória.
“O Renaux foi quem me abriu as portas para o futebol profissional. Depois passei por Marcílio Dias e Inter de Lages, mas o Renaux está no meu coração. Nunca vou esquecer o clube que me deu a chance de realizar o sonho de jogar profissionalmente”, destaca.
Hoje, ver o Vovô novamente na elite estadual representa a concretização de um sonho antigo.
“Quando eu jogava lá, isso era um sonho. Hoje vejo um trabalho bem feito, conheço pessoas que estão no clube e fico muito feliz. Sei que a Série A é outro nível, não vai ser fácil, mas sempre vou torcer para o Renaux”, completa.
Dois clubes, uma cidade
Para Edgar, a presença de dois clubes de Brusque na elite catarinense não é um problema, mas um reflexo de organização e paixão.
“Muita gente fala que cidade pequena não comporta dois times, mas por que não? Em 2004, quando os dois estavam juntos, o estádio recebia cerca de cinco mil pessoas. Se houver organização, dá sim para ter dois clubes. Espero que os dois façam um bom campeonato”, avalia.
Virada, tensão e campanha histórica
No segundo turno da Série B1 de 2004, o clássico foi ainda mais intenso. Mesmo atuando com um jogador a menos durante boa parte da partida, o Brusque buscou a virada e venceu por 2 a 1. O Carlos Renaux abriu o placar após um gol contra do volante Paulo, mas o Quadricolor reagiu com Adriano e garantiu a vitória nos minutos finais, com Adans, aos 43 do segundo tempo.

A campanha terminou com o Brusque como vice-campeão da competição, resultado que garantiu o acesso à divisão superior do futebol catarinense e marcou o início de uma nova fase para o clube.
Quem viveu o clássico pelo lado do Brusque
Capitão do Brusque nos confrontos de 2004, o ex-zagueiro João Miguel destaca o simbolismo do reencontro e a evolução estrutural do futebol local ao longo das últimas duas décadas.
“É um clássico da cidade de Brusque e do futebol catarinense. Em 2004, a realidade era outra. De lá para cá, o futebol da cidade evoluiu muito. Ver hoje as duas equipes na primeira divisão mostra isso”, afirma.
Para ele, clássicos municipais sempre carregam um peso especial, independentemente do contexto esportivo.
“Todo clássico movimenta pessoas e valoriza o futebol regional. É um jogo que agita a cidade”, completa.
João Miguel também projeta um ambiente especial no estádio Augusto Bauer neste domingo, mesmo após mais de duas décadas desde o último confronto profissional.
“Faz muito tempo que não visito o estádio. Sei que passou por uma grande reforma e vejo pelas imagens que está muito bonito. Mas o torcedor de 20 anos atrás não difere do torcedor de hoje: é apaixonado pelo clube e pelo clássico, com vontade de ver o seu time vencer. A atmosfera sempre foi muito boa”, destaca.
Contexto atual amplia o peso do confronto
O ex-goleiro de ambos os clubes, Fabiano Appel, também viveu aquele período e avalia que o clássico ganha novos contornos em 2026.
“Naquela época talvez não houvesse tanta rivalidade, porque o Brusque estava retornando ao futebol profissional. Hoje o cenário mudou. O Brusque se estruturou, virou SAF, tem calendário nacional. Isso aumenta o peso do confronto”, analisa.
Fabiano projeta um jogo equilibrado, mas com estratégias distintas.
“O Carlos Renaux vem de derrota e precisa reagir, deve jogar com cautela, mas muito motivado. Enfrentar um time com calendário nacional também é uma vitrine para os jogadores. Já o Brusque precisa fazer o dever de casa, porque o campeonato é difícil e qualquer descuido pode levar à zona de perigo”, completa.
Um novo capítulo após 22 anos
Com contextos distintos, Marreco e Vovô voltam a se enfrentar em um clássico raro, que carrega mais do que três pontos. O reencontro simboliza a evolução do futebol brusquense e a retomada de um duelo que faz parte da memória esportiva da cidade.
Após 22 anos, Brusque e Carlos Renaux escrevem um novo capítulo de uma história curta em confrontos, mas longa em significado.
Com a colaboração de Rafael Roncaglio
Fotos: TV Brusque/Reprodução

