Sidney Silva
Direto da Cidade do México
Falta apenas um dia para a bola rolar na Copa do Mundo de 2026 e o México já vive um momento histórico. O país está prestes a se tornar o primeiro do planeta a sediar três edições de Mundial, consolidando ainda mais sua ligação com o futebol. Porém, ao mesmo tempo em que as ruas recebem bandeiras, decorações temáticas e milhares de turistas vindos de diversas partes do mundo, a capital mexicana também enfrenta uma intensa onda de protestos.
Na Cidade do México, o cenário é de contraste. Enquanto torcedores circulam empolgados e comerciantes celebram o movimento gerado pela Copa, importantes avenidas e regiões centrais foram tomadas por manifestações nos últimos dias. O Zócalo, coração da capital mexicana, registrou ruas fechadas, forte presença policial e dificuldades de deslocamento.
Nossa reportagem acompanhou de perto a movimentação nas ruas e observou grupos com centenas de policiais espalhados pela região central. Em alguns momentos, o acesso ao entorno do Estádio Azteca chegou a ser totalmente bloqueado para evitar a aproximação dos manifestantes. Diversas pessoas precisaram caminhar quilômetros devido às interdições no trânsito e alterações no transporte público.
Apesar da tensão, não foram registradas cenas de violência ou confrontos durante a cobertura realizada pela reportagem.
As manifestações reúnem diferentes grupos sociais, cada um com suas próprias reivindicações, mas que decidiram aproveitar a visibilidade internacional da Copa do Mundo para cobrar respostas do governo mexicano.
Entre os principais movimentos está a CNTE (Coordinadora Nacional de Trabajadores de la Educación), sindicato nacional ligado aos professores. Os docentes protestam contra a Lei do ISSSTE de 2007 e pedem melhores salários, além da retomada de mesas de diálogo com o governo federal e a revogação de reformas educacionais.
Outro grupo que chama atenção nas ruas é formado pelas chamadas “mães buscadoras”, mulheres que tentam encontrar filhos desaparecidos, muitos deles possíveis vítimas dos cartéis mexicanos. Em clima de desespero e dor, elas utilizam a repercussão mundial do torneio para dar visibilidade à crise de desaparecimentos no país.
Também participam dos atos trabalhadores do transporte, que denunciam cobranças ilegais e dificuldades para atuar. Segundo os manifestantes, muitos profissionais precisam pagar uma espécie de pedágio para conseguir trabalhar e circular em determinadas regiões. Quem não paga, acaba sofrendo punições.
“É uma realidade muito triste”, resume o guia turístico Rafael Pérez Carranza.
Apaixonado pelo futebol brasileiro, Rafael acompanhou o jornalista Sidney Silva durante um trajeto de Uber pela capital mexicana. Entre uma corrida e outra, ele também atua como guia turístico e conhece como poucos cada canto da Cidade do México.
Mesmo usando uma camisa turística da Colômbia, ele não esconde a admiração pelo Brasil.
“O Brasil será meu segundo time na Copa”, conta, sorrindo, embora admita que parte da população local não esteja tão otimista com a seleção mexicana.
Filho de uma família humilde, Rafael nasceu e cresceu na Cidade do México e representa o típico trabalhador mexicano que luta diariamente para oferecer melhores condições de vida à família. Seu sonho? “Poder viajar para fora do país e melhorar a vida da família e dos filhos”
Durante a conversa, ele falou sobre os desafios da cidade, mas também fez questão de destacar o lado acolhedor do povo mexicano.
“Somos muito amáveis. Gostamos muito de receber turistas”, afirma.
Apesar dos problemas relacionados à violência e aos cartéis, Rafael defende que o México continua sendo um destino seguro para visitantes.
“Esses problemas com os cartéis acontecem entre eles. Mas o México é sim um lugar tranquilo para visitar e conhecer, além de ser muito lindo”, relata enquanto mostra detalhes históricos e curiosidades da capital.
O futebol brasileiro também foi tema constante da conversa. Rafael lembra com facilidade de ídolos históricos da Seleção Brasileira como Romário, Ronaldo, Ronaldinho, Cafu e Neymar.
“O Brasil tem o estilo de jogo do joga bonito. É o único país do mundo com essa capacidade. Por isso encanta tanto a gente. O que vejo é que os brasileiros estão muito pressionados nos últimos anos. Tem que relaxar e desfrutar, porque possuem talentos como nenhum outro país”, comenta.
No meio do trânsito intenso da Cidade do México, Rafael ainda abaixa o vidro do carro e pergunta para outro mexicano ao lado:
“Não é verdade que amamos o Brasil?”
A resposta vem imediata:
“Claro! Viva o Brasil!”
Entre festas, bandeiras, turistas, futebol e protestos, a Cidade do México vive dias históricos. Um cenário onde a paixão pela Copa do Mundo divide espaço com reivindicações sociais e com a tentativa de diferentes grupos de transformar a atenção global em voz para suas causas.
A cobertura do EsporteSC na Copa de Mundo tem o apoio de: Aradefe Malhas, DaySport, Gabi Automóveis, Leoni Odontologia e Estética, Loja Três Trevo e Zane Mecânica.






