Família de Blumenau que pratica homeschooling há 13 anos é condenada e contesta decisão da Justiça; caso repercute na Câmara

Uma família de Blumenau foi condenada por manter os sete filhos em regime de educação domiciliar, conhecido como homeschooling. Caso repercutiu na Câmara de Vereadores do município

por Rafael Alves
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Uma família de Blumenau foi condenada por manter os sete filhos em regime de educação domiciliar, conhecido como homeschooling, ao longo dos últimos 13 anos. A decisão, proferida pela Vara da Infância e Juventude de Blumenau, determina a matrícula imediata dos filhos na rede regular de ensino e estabelece multa de 40 salários mínimos aos pais, valor estimado em cerca de R$ 64 mil. O caso também repercutiu na Câmara de Vereadores do município (veja abaixo).

A sentença foi proferida no fim de julho e divulgada publicamente pela família no dia 6 de agosto. Os pais afirmam que a decisão representa uma punição desproporcional e defendem que os filhos apresentam desempenho educacional e participação em atividades culturais e esportivas que comprovam o acompanhamento da formação fora do ambiente escolar tradicional.

A família mantém o perfil “Educando para o Céu” nas redes sociais, onde divulga conteúdos relacionados à educação domiciliar e se manifesta sobre o processo. Segundo os pais, a Justiça não ouviu nenhum dos sete filhos durante o caso. Eles afirmam ainda que apresentaram documentos com planejamentos pedagógicos, registros de atividades culturais e esportivas e outros materiais relacionados à formação das crianças e adolescentes.

Rotina de estudos

De acordo com a família, a educação dos filhos conta com o acompanhamento de seis professores particulares, responsáveis por disciplinas que integram o currículo escolar. Além das matérias convencionais, os filhos estudam idiomas e música.

Entre os resultados apresentados pelos pais está a trajetória do filho mais velho, de 19 anos, que cursa simultaneamente as faculdades de História e Letras. Ele também estuda alemão e russo. Uma filha de 16 anos, segundo a família, já atua como professora de idiomas e participa da coordenação de projetos de leitura.

A família também destaca a participação dos filhos em competições de xadrez. Segundo os pais, cinco dos sete filhos acumulam mais de 300 medalhas em torneios regionais e nacionais da modalidade. Eles também afirmam que os filhos praticam outras atividades esportivas e culturais, além de estudarem piano e violino e idiomas como latim, inglês e francês.

No dia 7 de agosto, a família levou as medalhas conquistadas pelos filhos para uma manifestação em frente ao Fórum de Blumenau, como forma de protesto contra a decisão judicial.

O que diz a legislação

A situação ocorre em meio à falta de uma regulamentação federal específica para o homeschooling no Brasil. Em 2018, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que a Constituição não proíbe a educação domiciliar, mas estabeleceu que a prática depende de regulamentação por meio de lei federal.

Desde então, projetos para regulamentar o modelo tramitam no Congresso Nacional. O Projeto de Lei 1.338/2022 foi aprovado pela Câmara dos Deputados e está parado no Senado. O texto prevê regras para as famílias que optarem pelo ensino domiciliar, incluindo a apresentação de um plano de atividades e de relatórios semestrais a uma instituição de ensino responsável pelo acompanhamento.

A proposta também estabelece requisitos relacionados à formação dos responsáveis pela educação, incluindo a exigência de ensino superior ou formação técnica, conforme as regras previstas no projeto.

Enquanto não existe uma legislação federal específica regulamentando o homeschooling, famílias que adotam o modelo ficam sujeitas às regras atualmente vigentes sobre matrícula e frequência escolar e às decisões tomadas em cada caso pela Justiça.

Caso repercute na Câmara de Blumenau

A decisão também repercutiu na Câmara Municipal de Blumenau. Durante a sessão ordinária de terça-feira (11), o vereador Flávio Linhares (PL) comentou o caso e defendeu a regulamentação da educação domiciliar no país.

O parlamentar citou a trajetória dos filhos da família em atividades como o xadrez e a participação em ações da biblioteca municipal. Linhares também criticou a decisão judicial e questionou a ausência de uma regulamentação específica para o homeschooling.

Durante o pronunciamento, o vereador defendeu que o Senado avance na análise do projeto que regulamenta a educação domiciliar e afirmou que os pais devem ter papel central na formação dos filhos. Ao final, apresentou uma moção de repúdio à decisão da Vara da Infância e Juventude de Blumenau.

O caso também foi abordado pela TV Legislativa da Câmara de Blumenau, que produziu uma reportagem com a família. Na entrevista, os pais falaram sobre a decisão judicial, apresentaram a rotina de estudos dos filhos e explicaram os argumentos utilizados para defender a continuidade da educação domiciliar.

A família reforçou que considera a decisão desproporcional e que pretende continuar defendendo o direito ao homeschooling por meios democráticos e legais.

Foto: Redes Sociais/Reprodução