Brusquense se prepara para corrida na Serra do Rio do Rastro e relata como hábito transformou sua rotina e qualidade de vida

A brusquense Cléria Hoepers, de 42 anos, se prepara para disputar pela terceira vez a Rio do Rastro Marathon, nos dias 16 e 17 de maio. Apaixonada pela corrida, ela afirma que o esporte transformou sua rotina, qualidade de vida e forma de enxergar os desafios

por Rafael Alves
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A relação da brusquense Cléria Hoepers, de 42 anos, com a corrida começou de forma simples, quase sem pretensão. Um convite para participar de uma prova em Brusque acabou se transformando em uma mudança profunda de rotina, mentalidade e qualidade de vida. Hoje, anos depois da primeira experiência, ela se prepara para mais um grande desafio: a Rio do Rastro Marathon, marcada para o fim de semana dos dias 16 e 17 de maio, na Serra do Rio do Rastro, em Santa Catarina.

Cléria disputará a prova de 12 quilômetros em uma das corridas mais conhecidas e desafiadoras do país. O evento reúne atletas de diversas regiões em percursos de 12, 25, 42 km e também na “Missão dos Guardiões”, ultramaratona de 67 quilômetros.

A prova acontece em um dos cenários mais emblemáticos do Brasil. A Serra do Rio do Rastro, entre Lauro Müller e Bom Jardim da Serra, possui 284 curvas em cerca de sete quilômetros de subida, cercada por paredões, mata atlântica e altitudes superiores a 1,4 mil metros. O local já foi citado em publicações internacionais como uma das estradas mais bonitas do mundo.

Mas, para Cléria, o desafio vai além das montanhas.

“Correr não é simplesmente colocar o tênis e sair correndo. A corrida vem muito da mente. O pensamento o tempo todo manda você parar, enquanto você tenta convencer o corpo a continuar”, afirma.

Ela conta que iniciou na modalidade após incentivo do namorado, Daniel Bressiani e da personal trainer dele, Mariza Zanin, que já praticavam corrida. A estreia aconteceu em uma prova de cinco quilômetros promovida em Brusque.

“Eu fui no meu ritmo, sem pensar no tempo. Foi cansativo, difícil, mas quando terminei senti uma felicidade enorme. A primeira corrida é algo inesquecível”, relembra.

A partir daquele momento, a corrida passou a fazer parte da rotina. Cléria começou a participar de provas em diferentes cidades, como Balneário Camboriú e São Paulo, e encontrou no esporte algo que define como essencial para sua vida.

“A corrida me trouxe novamente a vontade de viver”, resume.

Desafio na serra

Essa será a terceira oportunidade de Cléria na Rio do Rastro Marathon. A primeira experiência ficou marcada pela superação. Segundo ela, o dia da prova começou com chuva, frio intenso e temperatura próxima de cinco graus negativos.

“Quando chegamos lá, eu pensei várias vezes em não sair do carro. Era muito frio. Mas depois pensei: se cheguei até aqui, preciso tentar”, conta.

Mesmo diante das dificuldades, completou a subida da serra e criou uma conexão especial com o local. Desde então, a prova se tornou uma meta fixa em sua trajetória.

“Cada curva traz uma emoção diferente. A serra tem uma energia muito forte. Você olha aquela imensidão e sente que consegue ir além”, relata.

Na segunda participação, além de melhorar o próprio tempo em 19 minutos, Cléria viveu momentos que considera inesquecíveis. Um deles aconteceu durante a subida, quando incentivou outros corredores ao perceber a multidão espalhada pelas curvas da serra.

“Eu gritei ‘bora, galera’, e todo mundo respondeu junto. Foi algo muito emocionante. Eu acredito muito que energia é tudo”, afirma.

Outro episódio marcante ocorreu quando encontrou um corredor de 84 anos durante a prova.

“Ele estava correndo muito bem, melhor que muita gente mais nova. Conversamos durante um trecho e eu pensei: quero chegar nessa idade assim também, com saúde e disposição”, comenta.

Cléria também destaca o significado simbólico que a prova carrega para os participantes. Segundo ela, os atletas que completam o percurso recebem simbolicamente o título de “Guardiões da Serra”, algo que carrega com orgulho. Para a brusquense, a experiência vai além da corrida e representa também respeito e cuidado com a natureza presente em todo o trajeto. ““Agora eu sou uma cuidadora da serra. Quando a gente recebe essa medalha e esse título de guardião, parece que passa a ter ainda mais responsabilidade e carinho por aquele lugar”, afirma.

Inspiração para outras pessoas

Além das competições, Cléria afirma que a corrida também aproximou pessoas e acabou servindo de incentivo para amigos e familiares começarem no esporte.

Ela conta que costuma compartilhar treinos e experiências nas redes sociais, o que despertou interesse em pessoas próximas.

“Tem muita gente que começou a correr depois de acompanhar minha rotina. Minha prima, meu primo, amigos. Uma amiga minha nem gostava de caminhar e depois me convidou para correr 10 quilômetros com ela. Foi emocionante”, relata.

Segundo Cléria, a corrida nunca teve como principal objetivo desempenho ou velocidade. Para ela, o mais importante é a experiência proporcionada pelo esporte.

“No começo a gente fica muito focado em pace, em tempo, mas hoje eu vejo a corrida como conexão. É conversar com pessoas, incentivar quem está do lado, se sentir feliz”, diz.

Ela mantém uma rotina de treinos conciliada com musculação e, nas últimas semanas, intensificou a preparação para a prova da serra. Ainda assim, garante que o foco principal continua sendo aproveitar o momento.

“Eu vou para curtir, viver essa energia e incentivar outras pessoas. Às vezes alguém está quase desistindo e uma palavra faz toda a diferença”, comenta.

Próximos desafios

Depois da Rio do Rastro Marathon, Cléria pretende participar da Corrida da Apae, marcada para o dia 24 de maio, em Brusque. No futuro, a brusquense também sonha em disputar a corrida das Três Fronteiras, passando por Paraguai, Argentina e Uruguai. Mais do que buscar medalhas ou tempos melhores, ela afirma que o principal objetivo é continuar vivendo as experiências que a corrida proporciona e incentivar outras pessoas a começarem.

Cléria já planeja as próximas competições e futuras medalhas para a coleção

Pelas redes sociais e também nos treinos do dia a dia, Cléria costuma motivar iniciantes e compartilhar a própria evolução. Segundo ela, muitos acabam desistindo logo no início por acreditarem que não são capazes de correr longas distâncias.

“Todo mundo começa devagar. Eu corria de um poste até o outro e já estava cansada. O importante é continuar”, diz.

A poucos dias de mais uma subida na Serra do Rio do Rastro, Cléria afirma que encara a prova não apenas como uma competição, mas como um momento de superação pessoal, conexão e celebração da própria trajetória construída no esporte.

“Sou uma Cléria antes da corrida e outra depois dela”, resume.

Fotos: Arquivo pessoal