O Conselho Municipal de Esportes (CME) de Brusque deverá solicitar a substituição de Maicon Cesari da comissão responsável pelo Bolsa-Atleta do município. O coordenador de uma associação esportiva foi preso em flagrante pela Delegacia de Investigação Criminal (DIC), suspeito de exigir de um atleta beneficiado pelo programa o repasse dos valores recebidos mensalmente.
Além de sua saída da comissão do Bolsa-Atleta, que conta também com representantes da Prefeitura de Brusque, Maicon também deverá ser substituido no próprio conselho.
Diante da prisão, o presidente do CME, Delmar Tondolo, afirmou ao EsporteSC que o Conselho não fará qualquer julgamento antecipado sobre a investigação criminal.
“Estou surpreso com a notícia, mas não cabe a mim julgar. Cabe aos órgãos de justiça fazer seu trabalho e chegar à conclusão e penalizar de acordo com as leis”, afirmou.
Segundo Tondolo, entretanto, o Conselho deverá tomar uma providência administrativa em relação à participação de Maicon na comissão.
“Quanto ao Conselho também não cabe julgar, vamos solicitar a substituição do indicado pelas instituições, e substituir o mesmo na Comissão do Bolsa-Atleta, como representante do CME”, explicou.
Investigação apura repasse de valores da bolsa
Maicon foi preso após a Polícia Civil acompanhar uma situação em que um atleta beneficiado pelo Bolsa-Atleta teria sacado o valor recebido pelo programa e posteriormente entregue o dinheiro ao coordenador. O caso ocorreu nesta última quarta-feira (9).
A investigação apura a suspeita de que o coordenador cobrava parte ou a totalidade do benefício recebido pelos atletas. A DIC também deverá verificar se outros beneficiários passaram por situação semelhante.
O caso ganhou repercussão porque o Bolsa-Atleta é um dos principais programas municipais de incentivo ao esporte e envolve recursos públicos destinados diretamente aos beneficiários.
O que dizem as regras do programa
A legislação municipal estabelece uma distinção entre o benefício destinado individualmente aos atletas e os recursos destinados às entidades esportivas.
No edital de 2026 da Bolsa Esportiva Municipal, o programa é direcionado ao atleta ou paratleta que atende aos requisitos estabelecidos pela Fundação Municipal de Esportes. Entre as obrigações do beneficiário está a prestação de contas dos recursos recebidos. O edital estabelece que essa prestação deve demonstrar a utilização dos valores para despesas relacionadas à manutenção pessoal e esportiva do beneficiado.
A própria estrutura do Programa Arthur Schlösser também possui uma modalidade específica voltada às entidades: a Bolsa Institucional.
Em 2026, a Prefeitura de Brusque destinou R$ 755.728,56 a 14 organizações da sociedade civil por meio da Bolsa Institucional. Os recursos são destinados à execução de projetos esportivos apresentados pelas entidades, com despesas previstas no edital, como materiais esportivos, uniformes, alimentação, hospedagem, transporte e taxas de competições.
A diferença é relevante para o caso investigado: enquanto a Bolsa Esportiva Municipal possui como beneficiário o atleta ou paratleta, a Bolsa Institucional é justamente o instrumento criado para financiar projetos das entidades esportivas.
Consentimento dos pais não encerra discussão sobre regularidade
Após a prisão, pais e pessoas ligadas à entidade passaram a defender Maicon nas redes sociais. Entre os argumentos apresentados está a afirmação de que eventuais repasses dos valores teriam ocorrido com conhecimento ou consentimento dos pais dos atletas envolvidos, para custeamento de despesas e também posterior rateio entre todos.
Esse argumento, porém, não encerra a discussão sobre a regularidade da prática perante as regras do programa.
Isso porque eventual autorização ou concordância entre familiares, atletas e entidade não altera, por si só, a natureza do benefício estabelecida pelo programa municipal.
O edital de 2026 determina que o beneficiário deve prestar contas da aplicação dos recursos recebidos, demonstrando que foram utilizados em sua manutenção pessoal e esportiva.
Portanto, caso seja confirmado que valores de uma bolsa individual foram entregues a uma entidade para que fossem administrados ou posteriormente divididos, caberá aos órgãos responsáveis, como a Fundação Municipal de Esportes e a Prefeitura Municipal, analisar se essa destinação é compatível com as regras do programa.
É importante ressaltar que isso é diferente de afirmar, neste momento, que houve crime ou que todos os envolvidos tinham conhecimento de eventual irregularidade. Essa conclusão depende da investigação e das demais provas que forem produzidas.
A situação investigada pela Polícia Civil deverá esclarecer se houve, no caso concreto, desvio da finalidade prevista para o benefício individual.
Alerta sobre fragilidades já havia sido feito
O caso também chama atenção porque o funcionamento do Bolsa-Atleta já havia sido alvo de questionamentos dentro do próprio Conselho Municipal de Esportes.
Meses antes da prisão, o conselheiro Sidney Silva, que é jornalista do EsporteSC, apresentou uma Nota Técnica ao CME apontando vulnerabilidades no programa e sugerindo medidas para ampliar os mecanismos de controle e fiscalização.
Entre os pontos levantados estavam a necessidade de maior transparência, mecanismos de acompanhamento dos beneficiários e formas de evitar que recursos destinados aos atletas fossem submetidos a acordos ou retenções externas.
Naquele momento, o documento tratava de riscos e vulnerabilidades do sistema, e não de qualquer acusação específica contra Maicon.
Agora, após a investigação da Polícia Civil, as discussões sobre os mecanismos de controle do programa ganham novo peso.
Substituição não representa condenação
A decisão do Conselho de solicitar a substituição de Maicon na comissão não significa uma conclusão sobre sua responsabilidade criminal.
A investigação continua sob responsabilidade da Polícia Civil e, posteriormente, caberá ao Ministério Público e ao Poder Judiciário avaliar os elementos reunidos no procedimento, caso haja prosseguimento da acusação.
Administrativamente, porém, o CME entende que a participação de um investigado em uma comissão que analisa justamente o programa relacionado aos fatos investigados deve ser interrompida neste momento.
A medida, segundo o presidente Delmar Tondolo, é uma decisão institucional do Conselho e não um julgamento antecipado.
O EsporteSC acompanha o caso e também buscará esclarecimentos junto à Fundação Municipal de Esportes sobre a prestação de contas dos beneficiários, os mecanismos de fiscalização utilizados atualmente e se o município identificou outras situações semelhantes.
O espaço permanece aberto para manifestação de Maicon Cesari, da entidade envolvida e das demais partes citadas.
Imagem Ilustrativa / IA



