Por Sidney Silva – Jornalista e editor de EsporteSC
Existe um momento em que governos começam a acreditar demais na própria propaganda. Cercados por páginas parceiras, comissionados, assessores e uma bolha digital construída à base de publicidade pública milionária, passam a enxergar uma cidade que muitas vezes não existe fora das redes sociais.
Em Brusque, a sensação é justamente essa.
Enquanto a população enfrenta problemas diários nas ruas, reclama da saúde, da mobilidade, da infraestrutura e cobra prioridades mais básicas, o governo parece cada vez mais distante da realidade. Vive numa espécie de mundo paralelo onde tudo é “histórico”, “transformador” e “referência”. Mas basta sair da internet e conversar com as pessoas comuns para perceber que o sentimento nas ruas já é outro.
A confirmação da nomeação de Victória Vilvert para a Secretaria de Transparência e Accountability talvez seja o maior símbolo disso até aqui.
Não se discute aqui a formação técnica da futura secretária. O currículo é robusto, respeitável e qualificado. O problema é político, moral e simbólico.
A Prefeitura decidiu colocar justamente a noiva do ex-homem forte do governo no comando da pasta responsável pela transparência, integridade e fiscalização administrativa. E isso poucos dias após a saída dele da administração, depois da conclusão da maior concessão da história da cidade, um contrato bilionário do esgoto.
O que talvez pareça normal dentro dos corredores do poder, fora deles soa completamente absurdo para grande parte da população.
E talvez o mais preocupante seja justamente isso: a aparente incapacidade do governo de perceber o tamanho do desgaste moral de decisões como essa.
Porque quando uma administração perde a sensibilidade sobre aquilo que a população considera ético, razoável ou minimamente prudente, ela começa a governar apenas para si mesma e para a bolha que a aplaude diariamente.
Os sinais disso vêm se acumulando.
Os gastos com publicidade dispararam e atingiram níveis históricos. As diárias cresceram mais de 300% em comparação aos últimos anos. A prefeitura passou a investir pesado em comunicação institucional enquanto enfrenta críticas crescentes em áreas essenciais.
Ao mesmo tempo, qualquer crítica parece tratada como “ataque político”, enquanto páginas alinhadas ao governo ajudam a construir uma narrativa permanente de perfeição administrativa.
Mas propaganda não muda a realidade.
A mesma gestão que fala em transparência é a que ignorou questionamentos da imprensa sobre a própria nomeação até a confirmação oficial. A mesma prefeitura que bate recordes em publicidade teve uma licitação suspensa pela Justiça por indícios de irregularidades. E agora nomeia a noiva do ex-secretário mais poderoso do governo justamente para a pasta da transparência.
Talvez dentro da bolha isso pareça normal. Fora dela, não parece.
Governos não caem apenas por corrupção ou grandes escândalos. Às vezes começam a ruir quando passam a acreditar que não precisam mais se preocupar com a opinião das pessoas comuns.
E esse talvez seja o maior risco hoje em Brusque: uma gestão que aparenta estar cada vez mais cercada de aplausos internos e cada vez mais distante do sentimento real das ruas.
Foto: Sátira/IA






